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Foto: shutterstock.com / Barbara Ash

O desperdício de materiais virou um dos maiores desafios econômicos da construção civil nas grandes cidades

A construção civil brasileira vive uma corrida por produtividade. Em meio ao avanço da industrialização, da inteligência artificial, do BIM...

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A construção civil brasileira vive uma corrida por produtividade. Em meio ao avanço da industrialização, da inteligência artificial, do BIM e de novas tecnologias de gestão, construtoras buscam reduzir custos, acelerar cronogramas e aumentar a eficiência dos canteiros. Mas um gargalo antigo continua atravessando o setor e começa a chamar atenção pela dimensão econômica que representa. Todos os anos, a construção civil brasileira deixa de reciclar cerca de 41,2 milhões de metros cúbicos de resíduos, segundo levantamento da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon). O volume ajuda a revelar um problema que vai além das questões ambientais e levanta uma discussão cada vez mais presente entre empresas do setor: quanto valor econômico está sendo perdido junto com os materiais descartados nas obras?

O dado ganha relevância em um momento particularmente delicado para a construção civil. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que a produtividade do setor acumulou queda de 20,4% nos últimos 30 anos, mesmo diante dos avanços tecnológicos observados no período. O contraste ajuda a explicar por que a gestão dos materiais descartados começa a ganhar espaço em um debate historicamente concentrado em mão de obra, tecnologia construtiva e eficiência operacional.

Enquanto empresas investem em automação, softwares de gestão, inteligência artificial e processos industrializados para buscar ganhos cada vez mais refinados de eficiência, milhões de metros cúbicos de materiais continuam deixando os canteiros sem qualquer retorno econômico para a cadeia produtiva. Em muitos casos, resíduos com potencial de reaproveitamento, reciclagem ou reinserção industrial ainda seguem para destinações de baixo valor agregado, ampliando perdas financeiras que raramente entram nos cálculos tradicionais do setor.

Para Eduardo Nascimento, fundador da Minha Coleta, a construção civil começa a passar por uma mudança de mentalidade semelhante à que outros segmentos da economia enfrentaram nos últimos anos ao perceber que eficiência não depende apenas de produzir mais, mas também de desperdiçar menos.

“Durante muito tempo, os resíduos foram vistos apenas como uma consequência inevitável da operação. Agora, o setor começa a perceber que parte importante da eficiência está justamente naquilo que acontece depois que o material deixa o canteiro.”

Segundo o executivo, as construtoras desenvolveram sistemas sofisticados para controlar compras, estoques, produtividade e cronogramas, mas ainda existe pouca visibilidade sobre o valor econômico que se perde ao longo da cadeia de descarte. O resultado é que materiais que poderiam retornar ao ciclo produtivo continuam sendo tratados apenas como custo operacional.

“As empresas sabem exatamente quanto investem para comprar materiais, mas poucas conseguem calcular quanto valor está saindo diariamente junto com aquilo que é descartado. Em muitos casos, estamos falando de recursos que poderiam retornar para cadeias produtivas, gerar novas receitas ou reduzir custos operacionais.”

A discussão ganha força em um contexto de amadurecimento da economia circular no Brasil e de mudanças regulatórias que buscam ampliar o aproveitamento econômico dos resíduos. A reforma tributária, por exemplo, trouxe mecanismos voltados ao fortalecimento da cadeia da reciclagem e ao aumento da formalização do setor, criando um ambiente mais favorável para a valorização de materiais que historicamente ficaram à margem das estratégias empresariais.

Na avaliação da Minha Coleta, o principal desafio não está necessariamente na falta de tecnologia ou de operadores especializados. O gargalo está na capacidade de conectar todos os agentes da cadeia e transformar o fim da obra em uma etapa estratégica da gestão, capaz de gerar indicadores, inteligência operacional e ganhos financeiros.

“O setor evoluiu muito na gestão do início da obra. Hoje existem ferramentas sofisticadas para controlar orçamento, produtividade e cronograma. Mas ainda existe pouca inteligência aplicada ao que acontece quando os materiais deixam a operação. É justamente nesse ponto que muitas oportunidades acabam ficando pelo caminho.”

Os resultados já começam a aparecer entre empresas que passaram a olhar para o tema sob uma perspectiva mais ampla. Em projetos realizados com a Cyrela, a Minha Coleta registrou taxa de recuperação de 57% dos materiais gerados em 13 obras simultâneas. Considerando todas as operações gerenciadas pela plataforma, a greentech afirma já ter administrado mais de 250 mil toneladas de resíduos com taxa média de recuperação de 42%, índice significativamente superior à média nacional de reciclagem.

Para Nascimento, a próxima fronteira de produtividade da construção civil brasileira pode estar justamente em um tema que durante décadas foi tratado apenas como uma obrigação ambiental ou logística.

“Durante muito tempo, produtividade significou produzir mais gastando menos. Agora, as empresas começam a perceber que produtividade também passa por aproveitar melhor os recursos que já foram comprados. O material mais caro é aquele que entra na obra e sai sem gerar valor.”

Foto: shutterstock.com / Barbara Ash

A discussão ainda está longe de ocupar o mesmo espaço dedicado a temas como inteligência artificial, industrialização ou escassez de mão de obra. Mas começa a ganhar terreno dentro das construtoras à medida que cresce a pressão por eficiência e competitividade.

Em um setor que busca produzir mais com menos recursos, reduzir perdas deixou de ser apenas uma questão operacional. Cada vez mais, passa a ser uma decisão econômica capaz de impactar diretamente os resultados dos empreendimentos e a produtividade da construção civil nas grandes cidades.


Por Pietra Ribeiro –Lapresse

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