Desde o tarifaço do ano passado, produto já vinha perdendo mercado no país; no primeiro semestre de 2025 os Estados Unidos compraram 15% da uva do Brasil e no mesmo período deste ano o índice caiu para 5%
A tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros a partir desta semana, 22 de julho, coloca ainda mais pressão sobre um já combalido comércio entre os dois países. A uva brasileira é um dos itens do agronegócio que está na lista de sobretaxa e a tributação total sobre a fruta será de 35%. Desde o tarifaço do ano passado, o produto já vinha perdendo mercado no país norte-americano. No primeiro semestre de 2025, os EUA compraram 15% da uva exportada pelo Brasil. No mesmo período deste ano, o índice caiu para 5%.
Em 2024, os Estados Unidos consumiram 23% das uvas exportadas pelo Brasil, que somaram 58,9 mil toneladas, e em 2023 compraram 27% da fruta enviada ao exterior, total de 72,2 mil toneladas. Os dados são do Comex, plataforma de exportações do governo federal.
A retração vem ocorrendo desde o segundo semestre do ano passado, quando os EUA decretaram o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, em agosto. Mesmo após a revogação dessa sobretaxa, em novembro, a venda de uvas para o país norte-americano ainda não havia sido estabilizada, como mostram os números do primeiro semestre deste ano, quando o Brasil embarcou 415,4 toneladas da fruta para o país, ante 1,6 mil toneladas enviadas no mesmo período do ano anterior.
O cenário de queda deve se manter com a nova medida dos Estados Unidos de sobretaxa de 25% sobre os 10% já em vigor. “A nova tarifa evidencia que o mercado norte-americano vive um ambiente de elevada volatilidade regulatória. Para o exportador, isso reforça a importância de diversificar mercados e manter padrões de rastreabilidade e competitividade para reduzir riscos comerciais futuros”, afirma o head da Ascenza Brasil, Hugo Centurion.
O melão e a melancia são outras frutas sobretaxadas pelos EUA em 25%, mas o país não está entre os maiores compradores delas, que têm na Europa o maior mercado. Em 2025, o país norte-americano comprou 0,8% do melão exportado pelo Brasil e 1% da melancia. Os principais compradores do melão brasileiro são Países Baixos (Holanda), Espanha, Reino Unido e Canadá. No caso da melancia, os maiores mercados estão no Reino Unido, Países Baixos, Espanha e Argentina.
Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a nova tarifa adicional de 25% imposta pelo governo dos Estados Unidos vai afetar cerca de 36,5% das exportações do agronegócio brasileiro, enquanto 63,5% do agro entraram na lista de exceções, sem tarifa. Itens importantes da pauta de exportação, como açúcar, arroz, madeira e ovos também estão sujeitos à alíquota de 25%.
A entidade aponta que a medida causa perda de competitividade e sugere a continuidade do diálogo para fortalecer as relações comerciais entre os dois países. A Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) avalia que a sobretaxa reduz significativamente a competitividade da fruta brasileira nos EUA e traz desafios para a cadeia produtiva.
A decisão dos Estados Unidos de sobretaxar produtos importados não é exclusiva para o Brasil. Nesta semana, o país criou tarifa de 50% sobre o vizinho Canadá, com previsão de entrar em vigor no dia 19 de agosto. A justificativa apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) e pela Casa Branca foi a “retaliação e discriminação” generalizada do Canadá contra o comércio e produtos dos Estados Unidos.

Isentos
Entre os produtos do agronegócio brasileiro isentos da tarifa de 25% dos EUA estão café, carne bovina, suco de laranja, laranja in natura, outras frutas e itens considerados estratégicos para o abastecimento e para a indústria dos Estados Unidos. Segundo o USTR, a exclusão ocorreu porque esses produtos têm grande importância para a cadeia produtiva e para os consumidores norte-americanos, e não existem em oferta suficiente no mercado interno dos EUA.
O governo norte-americano argumenta que o novo tarifário responde a práticas desfavoráveis ao comércio dos Estados Unidos, como acesso ao mercado, propriedade intelectual, comércio digital, combate à corrupção e desmatamento ilegal. O tarifaço, portanto, não é generalizado, afeta em maior parte as exportações industriais brasileiras e preserva produtos agropecuários e matérias-primas considerados essenciais para a economia norte-americana.
A sobretaxa de 25% será cobrada no momento da entrada dos produtos brasileiros nos Estados Unidos, elevando o custo de importação para compradores norte-americanos. Na prática, a medida reduz a competitividade dos itens tarifados em relação aos produtos fabricados nos EUA ou importados de outros países que não têm a mesma tarifa.
Mesmo sem ser o principal destino das exportações agropecuárias brasileiras, os Estados Unidos ocupam posição estratégica para diversas cadeias produtivas. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 11,4 bilhões para o mercado norte-americano, com destaque para café, produtos florestais, carnes, suco de laranja, açúcar, frutas e tabaco. Os EUA estão entre os três maiores compradores do agro brasileiro, com China e União Europeia.
No caso do café, os Estados Unidos permanecem como relevante destino do produto brasileiro. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), a exclusão do café, inclusive solúvel, evita impactos sobre um mercado que movimenta entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões por ano para a cadeia cafeeira nacional.
Reação
Diante das tarifas impostas no ano passado pelos EUA contra o Brasil, o setor exportador respondeu intensificando negociações comerciais, diversificando mercados e antecipando embarques e reforçando a atuação conjunta entre entidades brasileiras e associações importadoras norte-americanas. Essas articulações contribuíram para a ampliação das listas de exceção e para a manutenção dos principais produtos agropecuários brasileiros fora da nova rodada de tarifas.
Analistas observam que a nova sobretaxa reforça um cenário internacional de crescente uso de instrumentos comerciais como ferramenta de política econômica. “Para os exportadores brasileiros, a medida evidencia a necessidade de acompanhar continuamente as mudanças regulatórias e ampliar a diversificação dos destinos das exportações”, afirma o head da Ascenza.
Centurion comenta que os produtores de uva e outros produtos sobretaxados devem continuar seguindo as medidas que adotaram no tarifaço do ano passado, como diversificação dos destinos, ampliação de vendas para Europa e Canadá, prospecção de novos mercados sul-americanos e negociação com redes varejistas internacionais. Apesar da tarifa de 50% de 2025, não houve colapso das exportações, porque parte dos embarques foi redirecionada para outros destinos.
O head da Ascenza diz ainda que os exportadores podem investir na produção para buscar mercados premium, aumentar certificações internacionais, negociar contratos de longo prazo, concentrar embarques em períodos de menor oferta mundial e investir em mercados como Ásia e Oriente Médio.
Assessoria de Imprensa
Silvana Guaiume



