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O jornalismo atinge sua maior nobreza ao registrar não apenas as notícias, mas também os “pequenos” milagres do cotidiano

Trabalhar como jornalista é uma ocupação profissional; ser jornalista é uma condição da alma. Quem carrega a profissão no DNA...

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Trabalhar como jornalista é uma ocupação profissional; ser jornalista é uma condição da alma. Quem carrega a profissão no DNA sabe que a verdadeira vocação não se limita a cumprir prazos ou preencher laudas ou ficar somente sentado atrás de uma messa. Ser jornalista é viver de cara com a janela da consciência escancarada, permitindo-se mergulhar nas profundezas da realidade e ter o compromisso sagrado de investigar todos os lados, buscar a imparcialidade e recusar o ato leviano de atirar notícias sem embasamento. É uma jornada sem limites para o aprendizado, onde cada fato exige um olhar atento, investigativo e profundamente respeitoso.

Contudo, essa escuta atenta para o mundo não deve se restringir somente às atitudes humanas — sejam elas quais forem. O olhar jornalístico ganha sua máxima nobreza quando também se dispõe a capturar os movimentos milagrosos e sutis que contornam o mundo.

Quero dizer com isso que, como jornalista, não fico atenta somente aos acontecimentos do comportamento humano, mas também a pontos milagrosos que muitas vezes estão acontecendo debaixo do nosso nariz. Recentemente, por exemplo, a vida me convidou a fazer uma pausa em meio ao turbilhão do trabalho cotidiano: fiquei a mirar o comportamento de um casal de rolinhas que passou dias sobrevoando meu telhado e minha garagem.

De início, dominada pelo receio do instinto dos meus cães, que latiam sem parar, e afastava as pequenas aves indefesas. Mas a persistência daquela vida em brotar me fez mudar a rota: afastei os cães para o fundo do quintal e cedi o espaço. O casal escolheu, então, o coração verde da minha samambaia para construir o seu ninho.

Ali, tornei-me testemunha de uma lição divina. Vi a parceria irrestrita de duas criaturas dividindo os plantões, protegendo-se mutuamente e guardando a promessa dos ovos. Enfrentaram noites longas, silêncios e incertezas. Cerca de 25 dias se passaram, e os pequenos filhotes finalmente romperam as cascas. Hoje, já empenados e cheios de vida, revelam a perfeição do Criador em cada detalhe.

A humanidade vive imersa em uma corrida desenfreada, cega para as grandezas que acontecem bem diante dos nossos olhos. A natureza não apressa o seu ritmo, mas cumpre cada milagre com precisão. O casal de rolinhas não me mostrou apenas sobre o amor parental, mas funcionou como um espelho e um exemplo para que nós, seres humanos, aprendamos a ser melhores.

Para compreender o real valor da vida e o mistério do nascimento, é preciso aprendermos a parar pelo menos um tempinho do nosso longo tempo para observar essa magia divina e entender que não somos os únicos seres vivos correndo atrás da sobrevivência. Há muitos seres lutando para permanecer vivos em meio a uma selva gigante de predadores.

É nos pequenos detalhes e nas transformações silenciosas que contemplamos a imensidão do Criador. Este planeta não é apenas um palco de acontecimentos frenéticos, mas uma verdadeira escola para a evolução humana. A meu ver — tanto como jornalista quanto como ser humano —, a profissão exige também a sensibilidade de uma alma aberta, capaz de reportar não só as dores do mundo, mas a sagrada beleza que nos cerca. Essa beleza funciona como um sopro de paz e alento nestes tempos tão turbulentos.

  Por Ivonete Schmitz – jornalista

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