Quando se afirma que a política brasileira está na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), agonizando, não se trata de mera hipérbole retórica ou alarmismo eleitoral. Trata-se de uma metáfora diagnóstica precisa para descrever um sistema que deixou de funcionar de forma saudável, ética e democrática. A política, em sua essência filosófica e social, existe para pacificar conflitos, viabilizar o bem comum e construir horizontes de segurança e estabilidade para a coletividade. Quando ela perde essa vocação e se converte em vetor de insegurança nacional, o corpo social entra em choque séptico.
A eleição de 2026 expõe a fase mais aguda desta enfermidade crônica. Não se vê a confrontação plural de ideias ou propostas estruturantes para o futuro do Brasil; em seu lugar, naturalizou-se a apologia à violência, a coerção e o horror como ferramentas legítimas do debate público. O diagnóstico é cristalino: as instituições e os agentes políticos padecem de falhas sistêmicas que comprometem a própria sobrevida da nação.
Como o cidadão brasileiro pode vislumbrar o amanhã quando o presente é marcado por cenas estarrecedoras de colapso social? Os sintomas da doença espalham-se por todas as camadas da sociedade:
Universidades incendiadas e vilipendiadas simbolizam a destruição deliberada dos espaços de pensamento crítico, pesquisa e produção do conhecimento. Queimar o espaço acadêmico é incendiar o próprio futuro de uma nação. Crianças empunhando armas de fogo, dançando e exaltando a cultura do crime, revelam a falência absoluta da proteção social e do Estado de Direito. Quando a infância perde a inocência para a gramática da violência armada, é o tecido social que está se esfacelando na base. A barbárie atinge o topo do pacto institucional quando magistrados passam a sofrer ameaças explícitas de fuzilamento e decapitação, em alusões macabras que evocam os episódios mais sombrios da história colonial (morte de Tiradentes).
Desafiar a ordem jurídica com ameaças de execução pública não é manifestação política; é atentado direto à democracia. O caso de Ana Elisa — uma jovem de 21 anos, negra e de origem humilde, guindada pela vontade popular como a deputada federal mais votada do Estado de Minas Gerais — torna-se o retrato mais cruel da atualidade. Em vez de sua eleição ser celebrada como uma vitória da representatividade democrática, ela passa a ser alvo de ameaças sistemáticas de morte e estupro. O objetivo dessas agressões é transparente: impor o medo para interditar a ocupação dos espaços de poder por corpos e vozes historicamente marginalizados.
A política atual reduziu-se à agressão contínua. Ataques interpessoais, difamações operadas em escala industrial e aniquilação do adversário substituíram o compromisso com o povo brasileiro. Diante desse cenário, percebe-se que o “remédio” das dinâmicas democráticas tradicionais está perdendo o efeito, anestesiado pela polarização tóxica e pela apatia institucional.
Ainda mais grave é o risco que ronda o “antídoto” fundamental: a Constituição Federal de 1988. Nascida do processo de redemocratização para garantir direitos fundamentais, frear abusos de poder e assegurar a dignidade humana, a Carta Magna corre o risco de sofrer mutilações e alterações casuísticas destinadas a enfraquecer suas garantias em nome de projetos autoritários ou de interesses conjunturais. Alterar o texto constitucional para enfraquecer proteções sociais ou relativizar agressões institucionais equivale a desligar os aparelhos que mantêm o país respirando.
Um país não sobrevive indefinidamente no leito de uma UTI sem que ocorra uma falência múltipla de órgãos. O diagnóstico é severo, mas a agonia da política não pode ser aceita como um destino inexorável.
A superação desta crise exige recuperar a consciência coletiva. Superar o impasse da insegurança nacional requer exigir responsabilidade ética e jurídica de quem estimula a violência, proteger inflexivelmente os representantes legitimamente eleitos e defender a integridade da Constituição. A política só voltará a ter saúde quando voltar a servir ao bem comum — garantindo que a juventude viva sem medo, que as instituições funcionem sem sobressaltos e que o exercício da cidadania volte a ser um ato de construção, e não de sobrevida.


Por Ivonete Schmitz
Jornalista e Editora Chefe
MTB 54.748/SP


