Diante do avanço de movimentos políticos de extrema-direita, caso venham a governar o Brasil, corremos o risco de perder esse direito que hoje é constitucional.
O Brasil é reconhecido mundialmente por sua imensa pluralidade cultural e espiritual. Com uma população que ultrapassa 214 milhões de habitantes — inserida em um planeta de mais de 8,3 bilhões de pessoas —, o país abriga uma riqueza única de tradições, crenças e filosofias de vida.
No entanto, vivenciamos tempos em que visões exclusivistas tentam monopolizar a fé, gerando intolerância ao apontar quem ‘tem ou não direito’ aos ensinamentos de Cristo. Diante desse cenário, torna-se urgente resgatar a essência da espiritualidade e compreender por que a laicidade do Estado não se opõe ao sentimento religioso, mas sim o protege. Afinal, diante do avanço de movimentos políticos de extrema-direita, caso venham a governar o Brasil, corremos o risco de perder esse direito que hoje é constitucional.
O Brasil como “Hospital Espiritual” e o Sentido do Evangelho
Publicada em 1938, a obra Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, psicografada por Chico Xavier e atribuída ao espírito Humberto de Campos, traz uma reflexão profunda sobre a trajetória nacional.
Longe de incentivar o ufanismo ou a vaidade, o livro apresenta o Brasil como um “campo de trabalho, regeneração e hospital espiritual”.
•Coração do Mundo: Refere-se à vocação do povo brasileiro para o acolhimento, a afetuosidade, a diversidade e a solidariedade entre os povos.
•Pátria do Evangelho: Diz respeito ao dever moral e espiritual de vivenciar a essência da lei do amor, da paz e da fraternidade ensinada por Jesus — valores que pertencem à humanidade inteira, e não a uma única vertente religiosa.
O próprio livro refaz a história do país mostrando que a brasilidade foi moldada pela união e pela dor das três raças formadoras:
•Indígenas, Africanos e Europeus: O sofrimento das populações nativas e dos africanos escravizados imprimiu na alma nacional a resiliência, a humildade e a capacidade de amar e acolher.
Momentos Históricos: Das Bandeiras à Inconfidência Mineira, passando pela Independência e Proclamação da República, a trajetória brasileira revela uma construção contínua voltada para a unidade territorial e o cultivo da paz social.
A mensagem central dessa visão é clara: do ponto de vista do Cristo, toda a criação viva é filha de um único Pai. Apontar que apenas um determinado grupo “pertence a Deus “ ou seja cristão que monopoliza a figura de Jesus é uma afronta ao amor universal. A essência dos ensinamentos cristãos e do espírito laico converge para o mesmo ponto: o respeito humano.
O Conceito de Estado Laico: Garantia para Todas as Crenças
Para que uma nação tão diversa funcione como uma verdadeira “Pátria do Evangelho” — isto é, uma terra de acolhimento e fraternidade —, é indispensável entender o significado e a relevância de um Estado Laico.
Ser um Estado Laico não significa ser ateu ou antirreligioso. Significa que o Estado é neutro: ele não adota uma religião oficial, não favorece uma denominação em detrimento de outra e assegura que todos os cidadãos tenham o direito de professar sua fé, mudar de crença ou optar por não ter religião alguma. A garantia legal da liberdade de crença é fruto de séculos de lutas contra perseguições e imposições teocráticas.
Evolução no Brasil:
•Constituição de 1824 (Império): O catolicismo era a religião oficial; outras crenças eram apenas toleradas em âmbito privado.
•Decreto nº 119-A (1890) e Constituição de 1891: Redigidos por Ruy Barbosa, separaram oficialmente a Igreja do Estado, inaugurando a laicidade no país.
•Constituição Cidadã de 1988: Consolidou em seu Artigo 5º, inciso VI, que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos”.
Os Pilares da Liberdade Religiosa e da Convivência Pacífica
A legislação brasileira e os tratados internacionais buscam assegurar a harmonia social por meio de objetivos claros:
Garantir a Laicidade do Estado: Manter a administração pública neutra, sem subvencionar ou criar embaraços a qualquer grupo religioso.
Proteger a Autonomia de Consciência: Assegurar a liberdade do indivíduo para escolher, praticar ou alterar sua crença, assim como optar pelo ateísmo ou agnosticismo sem sofrer discriminação.
Proteger Locais de Culto e Liturgias: Dar segurança jurídica e física a terreiros, igrejas, mesquitas, sinagogas, centros espíritas e templos de todas as matrizes.
Combater a Intolerância Religiosa: Criminalizar a discriminação e o desrespeito aos cultos (conforme tipificado na Lei nº 7.716/1989 e legislações correlatas).
Respeitar a Escusa de Consciência: Garantir obrigações alternativas a cidadãos cujos deveres civis entrem em conflito com convicções de fé (como dias de guarda ou prestação de serviços alternativos).
A verdadeira grandeza do Brasil não se mede por dogmas impostos nem por discursos de exclusão. A lição deixada pelas páginas da história — e reafirmada pelos princípios fundamentais do Direito e da espiritualidade superior — é que o respeito mútuo é a única via para a regeneração moral.
Entender o Brasil como um Estado Laico e, simultaneamente, como a “Pátria do Evangelho” é compreender que a neutralidade das leis assegura a liberdade de todos, enquanto o amor e a fraternidade no cotidiano transformam a sociedade.
Amar ao próximo, acolher as diferenças e combater a intolerância são os passos definitivos para que o Brasil cumpra seu papel de refúgio de paz e de redenção para a humanidade.
Em conclusão, é fundamental ter a consciência de que a finalidade política não deve instrumentalizar a religião, tampouco usar o fanatismo religioso como ferramenta eleitoral para enganar a população. Respeitar essa fronteira é indispensável para proteger a integridade das instituições públicas e assegurar um debate eleitoral ético, transparente e focado naquilo que realmente importa para a sociedade.


Por Schmitz
Editora-Chefe – Jornalista – MTB 54.748/SP


