Neste domingo, 4 de outubro de 2026, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para o primeiro turno das Eleições 2026. Em um gesto que dura poucos segundos diante da urna eletrônica, cada cidadão exercerá a prerrogativa mais valiosa da democracia: definir os rumos do país e escolher quem governará e representará a sociedade nos próximos anos. Por trás dessa ação simples, esconde-se uma longa e árdua jornada histórica pelo direito à voz e ao sufrágio.
No entanto, a simplicidade do voto contemporâneo contrapõe-se a uma trajetória secular marcada por exclusões, privilégios de poucas oligarquias e batalhas árduas pelo sufrágio universal. Lembrar esse percurso é fundamental para compreender que a liberdade de escolha não foi um presente, mas uma conquista histórica do povo brasileiro.
A história do voto em solo nacional remonta a 1532, na Vila de São Vicente — no atual litoral paulista —, quando ocorreu o primeiro registro eleitoral na América Portuguesa para a escolha dos oficiais da Câmara Municipal. Aquele embrião eleitoral, contudo, era restrito aos chamados “homens bons”: homens brancos, proprietários de terras, católicos e sem ancestralidade indígena ou africana. A independência do país, em 1822, manteve essa estrutura de exclusão. A Constituição Imperial de 1824 oficializou o voto censitário, exigindo a comprovação de renda líquida mínima para poder votar e valores ainda maiores para quem desejasse se candidatar.
Décadas mais tarde, a Lei Saraiva (1881) instituiu o voto direto no Império, mas introduziu uma trava decisiva ao proibir o voto dos analfabetos. Em uma nação onde a imensa maioria da população não tinha acesso à instrução formal, a medida retirou mais de 80% dos brasileiros das urnas de uma só vez. Com a Proclamação da República e a Constituição de 1891, a exigência de renda foi eliminada, mas a marginalização continuou: mulheres, analfabetos, mendigos e praças militares permaneciam impedidos de votar. Além disso, como o voto era aberto e sem a garantia do sigilo, abriu-se espaço para a era do “coronelismo” e do “voto de cabresto”, no qual grandes latifundiários e chefes políticos locais controlavam as escolhas da população rural por meio de coerção, chantagens, intimidação e troca de favores.
A ruptura com esse modelo oligárquico começou na década de 1930. Como desdobramento da Revolução de 1930, o Código Eleitoral de 1932 promoveu transformações estruturais no país. Foi por meio dele que as mulheres conquistaram o direito de votar e de serem votadas, após décadas de mobilização do movimento feminista liderado por nomes como a cientista Bertha Lutz. O mesmo código instituiu a cabine individual e os envelopes oficiais, garantindo pela primeira vez a privacidade do eleitor no momento da escolha, enquanto a criação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a organizar a fiscalização e a apuração dos pleitos, combatendo as históricas fraudes do passado.
O avanço democrático sofreu um novo hiato durante a Ditadura Militar (1964–1985), quando o direito ao voto foi fortemente restrito. Foi a mobilização popular do movimento Diretas Já que impulsionou o restabelecimento pleno da democracia. Com a promulgação da Constituição Cidadã de 1988, o Brasil consagrou finalmente o sufrágio universal pleno, estendendo o direito de voto aos analfabetos e permitindo o voto facultativo aos jovens de 16 e 17 anos. Em 1996, a introdução da urna eletrônica eliminou as históricas vulnerabilidades na apuração manual de cédulas de papel, trazendo celeridade, segurança e transparência ao processo eleitoral.
Hoje em pleno século XXI, o desafio do voto consciente é mais do que nunca um dever central de cidadania. O perigo de promessas irrealizáveis, de práticas fisiológicas e de tentativas de retrocesso exige discernimento de cada eleitor. Não desperdice seu voto em troca de favores nem ceda à pressão de familiares e amigos. Reflita sobre o Brasil que você deseja para o presente e para o futuro de seus filhos e netos. A história nos ensina a olhar para a frente — e o futuro do nosso país continua sendo escrito nas urnas por quem escolhe exercer sua liberdade com responsabilidade.
“Bons votos para todos e muita boa sorte para o nosso Brasil, para que siga cada vez mais avante!”


Por Ivonete Schmitz
Editora-Chefe


