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RETÓRICA E FUGA: A vitória de Lula, o choque da derrota e o abandono de milhões de eleitores

É difícil assimilar a conduta de uma figura pública que se apresenta como liderança nacional, mas atua como mero figurante...

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É difícil assimilar a conduta de uma figura pública que se apresenta como liderança nacional, mas atua como mero figurante do próprio destino. Ao desembarcar nos Estados Unidos e divulgar uma carta à imprensa na qual inicialmente se autointitulava “presidente eleito” — expressão rapidamente corrigida para “líder do Brasil” —, o senador Flávio Bolsonaro expôs não apenas o tom farsesco de sua narrativa, mas também a fragilidade de seu discurso político. A mensagem, veiculada na imprensa nacional, levantou suspeitas de ter sido redigida com o auxílio de inteligência artificial e trazia o Brasão antigo que se referia ao país como “Estados Unidos do Brazil”. O símbolo foi utilizado no período entre a Proclamação da República, em 1889, e 1968, ano em que foi alterado durante a ditadura militar. Tal comportamento ostenta traços profundamente antipatrióticos e desalinhados com o que de fato representa o Brasil — escrito com “S”, e não com “Z”: O BraSil pertence ao povo brasileiro. Após a eleição, o diálogo com a nação deve ocorrer no púlpito, no coração do país, e não na condição de fugitivo em solo norte-americano.

Sob a roupagem de perseguido político, o senador deixa o país não em defesa de ideais ou do povo brasileiro, mas em uma clara tentativa de esquivar-se das investigações criminais que o cercam e, sobretudo, de proteger os interesses do clã familiar. Sua trajetória revela o método: intimado a entregar seus passaportes à Polícia Federal após a derrota nas urnas, o candidato do PL optou por sair do Brasil via Argentina, de onde embarcou em um voo particular rumo a Miami. A tática repete o enredo adotado por seu pai, Jair Bolsonaro, que ao fim de seu mandato também se retirou para a Flórida, evitando o rito democrático da passagem de faixa e deixando para trás um rastro de questionamentos ao sistema eleitoral.

Ao sugerir que o Brasil vive sob uma “ditadura”, o senador ignora fatos elementares da democracia brasileira: disputou livremente o pleito, viu seu partido formar uma das maiores bancadas no Congresso Nacional e assistiu a aliados e familiares conquistarem mandatos expressivos. Ainda assim, prefere alimentar teses conspiratórias sobre fraudes nas urnas — uma estratégia calculada para manter a militância engajada e inflamada em redes sociais e aplicativos de mensagem.

Como destacam cientistas políticos, esse tipo de retórica banaliza o debate público e serve como combustível para mobilizar a base radicalizada. Foi essa mesma dinâmica de desinformação contínua que culminou nos atos golpistas contra as sedes dos Três Poderes, em Brasília. Agora, ao se juntar ao irmão Eduardo Bolsonaro no exterior, Flávio reforça a dimensão transnacional da extrema-direita contemporânea, alinhando-se a redes conservadoras internacionais para buscar ressonância e sobrevivência política fora das fronteiras nacionais.

No plano prático, contudo, a fuga tem efeito duplo. Se por um lado tenta evitar o cumprimento de eventuais ordens judiciais e nutre o discurso de vitimização perante seus apoiadores, por outro sinaliza o desgaste e o isolamento do núcleo familiar. Com Jair Bolsonaro inelegível e condenado, e os filhos articulando ações a partir do exterior, abre-se espaço para a ascensão de novas lideranças na direita brasileira. O futuro do bolsonarismo passa a depender cada vez mais de figuras que permanecem no debate institucional interno; o movimento que um dia centralizou o poder em uma única família agora vê seu capital político ser disputado por novas vozes e arranjos partidários.

Liderar um país exige compromisso com as instituições, respeito às regras do jogo democrático e responsabilidade perante a lei. Aqueles que recorrem à fuga e ao disfarce da retórica vitimista demonstram, em última análise, que nunca estiveram dispostos a servir ao país, mas tão somente a usar a política em benefício próprio.

Neste contexto, o marco histórico da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva desfez definitivamente a soberba do adversário que já se dava por vencedor. A decepção com o resultado das urnas atropelou a prepotência, fez cair a máscara e revelou sua real face. Ao deixar o país sob tais circunstâncias, Flavio Bolsonaro, ex-candidato à presidência desonrou o Brasil, o povo e, sobretudo, os seus milhões de eleitores.

Por Ivonete Schmitz
Jornalista e Editora Chefe
MTB 54.748/SP

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