Voluntários lutam contra a desinformação e os maus-tratos para garantir dignidade aos animais resgatados.
A relação entre humanos e animais de estimação atravessa uma transformação profunda. Cães e gatos deixaram de ser apenas “vigias” de quintal para assumirem papéis de membros fundamentais das famílias, ensinando lições diárias de respeito e amor incondicional. No entanto, o brilho dessa evolução contrasta com uma sombra ainda persistente: o abandono e os maus-tratos. Em Capão Bonito, um marco decisivo nesta luta foi a inauguração do novo Canil Municipal Sorriso, em 29 de março de 2024 que conta com o trabalho incansável das voluntárias.
Localizado no Jardim Santa Isabel, o espaço onde antes funcionava um canil em condições precárias passou por uma revitalização completa. Hoje, o local é gerido pela Associação Protetora de Animais Sorriso, com suporte da Prefeitura Municipal, oferecendo um ambiente digno e humanizado. Mas, para além das paredes pintadas e da estrutura renovada, o maior desafio reside na conscientização da sociedade.

Desinformação: O Principal Obstáculo
“Muitos acham que o canil é responsável por todos os animais nas ruas ou que estamos de plantão 24 horas. Não é assim”, desabafa Maria José de Queiroz, presidente da instituição. Com uma vida dedicada à causa — cuidando de 12 cães em sua própria casa — ela descreve o trabalho no Canil como uma “ação solitária de amor”, frequentemente marcada por situações de vulnerabilidade e pela omissão de terceiros.
Segundo Maria José, a equipe de voluntários muitas vezes sacrifica afazeres pessoais para garantir o bem-estar dos abrigados. A triagem é rigorosa por necessidade: “Aqui acolhemos e priorizamos os casos mais graves: animais doentes, atropelados ou fêmeas com ninhadas. Temos limites de espaço e precisamos respeitar o comportamento para evitar brigas. Não podemos simplesmente amontoar os pets; eles precisam de exames e vacinação para não contaminar os outros”, explica. Ela ainda lembra de que um cão com câncer precisa ser amparado até seus últimos momentos. Uma cadela com filhotes demanda pelo menos 50 dias para o processo de cuidados com a mãe e os bebês, o que exige espaços ocupados.
A diretoria reforça que o abandono é crime previsto em lei, sujeito a punições rigorosas. “O cidadão precisa compreender que animais não são objetos descartáveis”, pontua a presidente.


Atendimento e números
Segundo a presidente, hoje, o canil abriga 7 machos, 14 fêmeas e 15 filhotes, além de um gato em tratamento contra a FeLV (Leucemia Viral Felina). O sucesso do projeto é visível nos números de adoção: desde a reinauguração, 12 adultos e 50 filhotes ganharam novos lares.
A associação também utiliza o Método CED (Captura, Esterilização e Devolução) para animais comunitários. Todos os animais que passam pelo canil são castrados, vacinados e chipados. O microchip, do tamanho de um grão de arroz, funciona como um “RG” que armazena os dados do tutor, facilitando o reencontro em casos de perda ou o rastreio em situações de novo abandono.
Histórias de Superação


Cada animal no Canil Sorriso carrega uma cicatriz, mas também uma vitória. Durante nossa visita, ao caminhar pelos corredores do abrigo, o som inicial de agitação logo dá lugar a algo mais denso: a história individual de cada animal. Como relatado pela presidente, aqueles cães não são apenas números ou resgates; são sobreviventes que carregam no corpo e no comportamento as cicatrizes de passados que preferiríamos que não existissem.
O cuidado intensivo das voluntárias é o que separa o trauma da esperança. Entre os casos que conhecemos, destacam-se:
- Milagre e Tatu: Ambos enfrentam com bravura as sessões de quimioterapia para tratar, respectivamente, um câncer de fígado e um Tumor Venéreo Transmissível (TVT).
- Brunão: Um dos casos mais emocionantes, que chegou com um quadro de metástase severa e, contra as expectativas, hoje apresenta uma recuperação surpreendente.
- Marquesa: Resgatada junto aos seus filhotes após um monitoramento paciente e estratégico da equipe.
- Barão e Vitório: Exemplos de resistência ao tempo e às doenças; Barão convive com as sequelas da cinomose, enquanto o idoso Vitório carrega as marcas de fraturas antigas na boca e na perna.
Atualmente, uma pastora alemã também está sob os cuidados do local, sendo objeto de uma investigação judicial após ser resgatada em situação de maus-tratos graves em uma empresa da cidade. Há muitas histórias e casos de animais que passaram por abandono e tortura.
O que realmente “mexe com a nossa sensibilidade” é perceber que a consciência sobre a vida animal vai muito além do afeto. Trata-se de reconhecer que a dignidade é um valor intrínseco. Quando ouvimos as histórias contadas pela presidente, entendemos que cada cicatriz daqueles cães tem um nome: Aquele cão que hoje hesita ao ver uma mão levantada não é “bravo”, ele é a memória viva de uma traição humana que de alguma forma o maltratou.
É quase incompreensível como seres que foram tão maltratados ainda conseguem, com um leve balançar de cauda, oferecer uma segunda chance aos humanos. Ver o empenho da gestão do canil nos faz refletir que a proteção animal não é caridade, é a necessidade de ajudá-los ,é reparação histórica. Cabe a cada ser humano repensar o valor destas criaturas que, assim como nós, também são seres criados por Deus e sentem o mesmo que sentimos: medo, dor, ansiedade, solidão e tristeza. E assim dessa forma, é preciso a sociedade ajudar quem cuida dos animais, em vez de criticar sem ao menos visitar o local para conhecer o árduo trabalho realizado por eles.
As histórias contadas pela presidente funcionam como uma ponte. Elas transformam o “cão de abrigo” no “ser que esperou meses por um remédio”, no “filhote que foi deixado ” ou no “velhinho que foi descartado após uma vida de lealdade”. “Não são apenas animais esperando um lar; são lições de superação esperando por alguém que finalmente entenda o valor da companhia fiel deles e que eles mesmo passado por todas estas dores continuam sendo ‘anjos’ esperando ainda ser companhia de alguém”.
Como Ajudar?
A rotatividade é a chave para o melhor funcionamento dos cuidados com os animais: para que um novo animal em sofrimento seja resgatado, outro precisa ser adotado. Ao adotar no Canil Sorriso, o cidadão recebe um pet super bem cuidado- já castrado e chipado – assim que sai um – temos espaço para acolher outro.
Para quem não pode adotar, as doações de insumos são fundamentais:
- Alimentos: Ração para adultos e filhotes.
- Limpeza: Sabão em pó, água sanitária e sacos de lixo (50L).
- Bem-estar: Brinquedos e acessórios para pets.
SERVIÇO
- Local: Jardim Santa Isabel, Capão Bonito/SP.
- Visitas: Abertas para interessados em adoção ou para conhecer o trabalho.
- Contato: (15) 99837-7520
- Instagram: @apa.sorriso
“A grandeza de uma nação e seu progresso moral podem ser julgados pela forma como seus animais são tratados.” — Mahatma Gandhi
Trabalhar a conscientização é o primeiro passo para que o abandono deixe de ser uma estatística e passe a ser visto como o que realmente é: uma violação da vida.
Município e a Parceria com Associação Sorriso
O Governo Municipal tem atuado intensamente para garantir que o Canil Municipal ofereça condições adequadas aos animais. Entre as iniciativas de destaque estão o Mutirão de Castrações, o funcionamento do Ambulatório PET e a criação do Conselho Municipal do Bem-Estar e Proteção Animal (COMBEPA). Com as novas instalações do Canil e a parceria firmada com a Associação Sorriso, o objetivo da administração municipal é ampliar significativamente os avanços na causa animal. – Hoje existe uma verba mensal de R$8.500 destinado a instituição.
Em contato com o prefeito Júlio Fernando, ele reiterou seu compromisso com a pauta. Devido a uma viagem oficial de trabalho, agendamos uma reunião para breve, na qual ele detalhará as ações da prefeitura em prol do bem-estar animal no município e o apoio contínuo ao trabalho da Associação Sorriso (próxima matéria), entre outras pautas.
Da Redação Local



