Infectologista explica como fatores ambientais favorecem o aumento de roedores silvestres e porque os primeiros sintomas da hantavirose podem ser confundidos com gripe e pneumonia
Embora seja considerada uma doença rara, a hantavirose voltou ao centro das discussões em saúde pública nas últimas semanas por causa da gravidade dos casos e da velocidade com que a infecção pode comprometer o sistema respiratório. A doença é transmitida principalmente pelo contato indireto com secreções de roedores silvestres infectados e exige atenção especial em áreas rurais, chácaras, sítios e regiões próximas à mata.
De acordo com Marcelo Abreu Ducroquet, médico infectologista e professor do curso de Medicina da Universidade Positivo (UP), o comportamento da doença está diretamente relacionado às mudanças ambientais que interferem na população de ratos silvestres.
“O número de casos ao longo dos anos tem relação com a quantidade de roedores e isso sofre influência da chuva e da oferta de alimento. Quanto mais chuva, maior a produção de grãos e, consequentemente, maior tende a ser a população de ratos”, explica.
Outro fenômeno observado pelos especialistas é a chamada florada da taquara, evento cíclico em que a planta produz uma quantidade muito grande de sementes. O excesso de alimento favorece o aumento acelerado dos roedores silvestres, considerados os principais reservatórios do vírus.
A repercussão internacional sobre o hantavírus também cresceu após registros de transmissão entre pessoas em outros países, incluindo episódios ligados a viagens marítimas. No entanto, Ducroquet ressalta que a realidade brasileira é diferente.
“A variedade de hantavírus que circula no Paraná e no Brasil não costuma ser transmitida de pessoa para pessoa. Aqui, a transmissão acontece principalmente do rato para o ser humano”, afirma.
Sintomas iniciais dificultam identificação da doença
Nos primeiros dias, a hantavirose pode se manifestar de maneira muito semelhante a outras doenças respiratórias comuns. Febre, dores no corpo, mal-estar e sintomas gripais fazem com que muitos pacientes associem o quadro inicialmente a uma gripe, influenza ou pneumonia.
A diferença está na possibilidade de agravamento rápido. “Em alguns casos o paciente evolui com muita falta de ar e insuficiência respiratória importante. O hantavírus pode provocar um edema pulmonar grave, exigindo internação, uso de oxigênio e até ventilação mecânica”, alerta o infectologista.
Segundo o especialista, exames de imagem, como a tomografia computadorizada, ajudam a diferenciar a hantavirose de outras infecções respiratórias.
Transmissão acontece pela inalação de partículas contaminadas
O vírus é transmitido principalmente pela inalação de partículas presentes na urina, saliva e fezes de roedores infectados. Quando esses resíduos secam, podem se espalhar no ar durante limpezas ou movimentação em locais fechados.
Ambientes como depósitos, galpões, celeiros, casas de campo e locais fechados por longos períodos exigem atenção redobrada antes da limpeza.
Entre os principais cuidados preventivos estão:
- armazenar corretamente alimentos, grãos e rações;
- evitar acúmulo de lixo e restos de comida;
- manter depósitos limpos e fechados;
- impedir a aproximação de roedores nas residências;
- reforçar cuidados em áreas rurais e próximas à vegetação.
“O transmissor não é o rato urbano comum. Normalmente falamos de roedores silvestres, que podem se aproximar das casas em busca de alimento”, explica Ducroquet.
Quando procurar ajuda médica
A recomendação é procurar atendimento médico sempre que houver febre acompanhada de sintomas respiratórios, especialmente após permanência recente em áreas rurais, acampamentos, parques, chácaras ou locais com possível presença de roedores.
“Informar ao médico que esteve em uma região rural nos últimos 30 dias pode ajudar muito no diagnóstico”, destaca o médico.
Os grupos com maior risco de desenvolver formas graves da doença incluem idosos, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas, como problemas cardíacos e renais.
Apesar da baixa incidência, a hantavirose continua sendo uma infecção de alta gravidade, principalmente quando o diagnóstico não ocorre rapidamente.


