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Acordo Mercosul–União Europeia marca início de uma nova era para o agro brasileiro

Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia finalmente entrou em vigor, ainda...

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Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia finalmente entrou em vigor, ainda que de forma provisória, em 1º de maio de 2026, marcando um dos movimentos mais relevantes da história recente do comércio internacional agrícola. Para o agronegócio brasileiro, o impacto é imediato, mas, sobretudo, estrutural.


O acordo inaugura uma transição que começa agora e se estende por até 10 anos para exportações à UE e até 15 anos para abertura total do Mercosul, período necessário para que a liberalização tarifária alcance seu pleno potencial. É um acordo que já começa forte e cresce com o tempo.

Já no primeiro dia de vigência, mais de 80% das exportações brasileiras para a União Europeia passaram a contar com tarifa zero, abrangendo milhares de produtos, segundo o governo brasileiro. No agro, o impacto inicial também é significativo. A CNA avalia que 39% dos produtos agropecuários brasileiros podem entrar sem tarifa no primeiro ano. A União Europeia eliminará tarifas para até 92% das exportações do Mercosul, o que equivale a mais de US$ 60 bilhões.


No total, cerca de 95% dos produtos do Mercosul terão tarifas eliminadas pela União Europeia em prazos que podem variar de forma imediata até 12 anos A redução das tarifas será gradual e seletiva, com prazos diferenciados conforme a sensibilidade dos setores. O acordo começa relevante, mas seu verdadeiro impacto será percebido na consolidação de cadeias exportadoras ao longo dos próximos 5 a 10 anos.

O setor de frutas é, possivelmente, o maior beneficiado imediato do acordo pela baixa proteção europeia combinada com alta demanda por produtos tropicais. Diversas frutas brasileiras terão acesso ampliado com eliminação total de tarifas, muitas sem cotas. A uva de mesa tem tarifa zerada imediatamente. O abacate terá taxas zeradas em até 4 anos; limão, lima, melancia e melão em até 7 anos; e maçã em até 10 anos.


Frutas como abacate, melão, uva e maçã não estarão sujeitas a cotas, o que elimina uma das principais barreiras históricas ao crescimento das exportações. O Brasil possui vantagens estruturais como produção contra-estação em relação à Europa, custos competitivos e ampla diversidade climática. O acordo, portanto, não cria competitividade, libera um potencial que já existia, mas estava travado por tarifas.

No caso do café, o impacto é ainda mais direto. O produto está entre aqueles com tarifa zerada já na entrada em vigor do acordo. Isso beneficia especialmente café solúvel, industrializado e produtos com maior valor agregado porque o acordo estimula a exportação de produtos processados e não apenas de commodities. Em um mercado europeu sofisticado, com forte demanda por cafés especiais e industrializados, o Brasil pode ampliar margens, diferenciar produtos e consolidar marcas.

Embora menos evidentes, os hortícolas e produtos derivados também ganham espaço relevante. O acordo prevê redução de tarifas para vegetais processados, sucos e óleos, e estímulo à exportação com maior valor agregado. Esse movimento favorece cooperativas, agroindústrias e cadeias integradas.

Mas se o acordo abre portas, ele também eleva o nível de exigência. A União Europeia é um dos mercados mais rigorosos do mundo em rastreabilidade, resíduos químicos, sustentabilidade e certificações. O acesso ampliado vem acompanhado de regras mais rígidas e fiscalização intensificada.

Para transformar o acordo em resultado concreto, produtores e empresas do agro precisam agir desde já em cinco frentes estratégicas. A profissionalização e rastreabilidade exige que compliance agrícola, monitoramento de resíduos e certificações internacionais deixem de ser diferenciais e passam a ser pré-requisito. A adoção de tecnologia e manejo eficiente deve fortalecer a adoção de produtos mais modernos e sustentáveis, manejo integrado de pragas e, novamente, redução de resíduos. A competitividade virá da combinação entre produtividade e conformidade.


Os produtores também devem ampliar o foco pensando em valor agregado para potencializar ganhos com processamento, branding e diferenciação, particularmente em café e hortícolas. O planejamento de médio prazo é fundamental para garantir competitividade, é preciso se posicionar agora para conquistar mercados. Os próximos 3 a 5 anos serão decisivos. Finalmente, a integração com a cadeia fortalece produtores, cooperativas, exportadores e indústria para atuarem de forma coordenada com objetivo de ganhar escala, reduzir custos logísticos e atender a padrões internacionais.

O sucesso não será automático, dependerá da capacidade do produtor brasileiro de evoluir tecnicamente, comercialmente e estrategicamente. Mais do que vender mais, o desafio será vender melhor.


Patrícia Cesarino é engenheira agrônoma e gerente de marketing da Ascenza Brasil.
Hugo Centurion é engenheiro agrônomo e head da Ascenza Brasil
Por Hugo Centurion e Patrícia Cesarino

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