O fenómeno do trumpismo é frequentemente reduzido à figura de Donald Trump ou tratado como uma anomalia passageira na história política norte-americana. No entanto, uma análise mais rigorosa revela que estamos perante algo muito mais profundo: o trumpismo não é a causa, mas sim um sintoma agudo da crise da democracia liberal no Ocidente. Este ensaio propõe uma reflexão sobre como a erosão da confiança institucional e o ressentimento social prepararam o terreno para o colapso do consenso liberal.
A Promessa Democrática vs. A Experiência Vivida
A democracia liberal sustenta-se numa promessa de progresso contínuo, inclusão e estabilidade. Contudo, para grandes segmentos da população, essa promessa deixou de corresponder à realidade. Quando a globalização, a automação e as crises financeiras criam uma massa de cidadãos que se sentem economicamente precários e culturalmente marginalizados, a legitimidade das instituições entra em rutura.
O populismo emerge precisamente nesta brecha entre a expectativa e a experiência. O trumpismo capitaliza o sentimento de que o sistema está “viciado” contra o cidadão comum, oferecendo uma narrativa de confronto que substitui a complexidade técnica da governação pela clareza moral do “nós contra eles”.
A Linguagem Política e a Erosão do Espaço Público
Uma das marcas mais visíveis desta transformação é a alteração da linguagem política. O debate racional, fundamentado em factos e na procura de consensos, foi substituído por uma comunicação hiperbólica e disruptiva. A verdade deixa de ser um valor partilhado para se tornar um acessório da identidade de grupo.
Neste cenário, o espaço público — outrora o local de deliberação — fragiliza-se. A política transforma-se num campo de confronto puramente emocional. O adversário não é alguém com quem se diverge, mas um inimigo a ser derrotado ou deslegitimado. Esta “politização das emoções” é uma ferramenta poderosa para mobilizar bases eleitorais, mas é corrosiva para a saúde das instituições democráticas.
O Colapso do Consenso Liberal
Durante décadas, houve um consenso tácito entre os principais partidos do Ocidente sobre as virtudes do mercado livre, da cooperação internacional e do Estado de Direito. O trumpismo representa a rotura definitiva com esse consenso. Ao questionar alianças históricas, normas institucionais e o papel da imprensa livre, o movimento expõe a fragilidade de regras que muitos consideravam imutáveis.
A transformação da política numa “guerra cultural” permanente desvia o foco das reformas estruturais necessárias para abordar as desigualdades de fundo. Em vez de soluções para a crise, o trumpismo oferece uma identidade de resistência contra as elites, perpetuando o ciclo de ressentimento.
Riscos para o Futuro
Compreender o trumpismo é essencial para diagnosticar os riscos que pairam sobre o futuro. Se as democracias liberais não conseguirem restaurar a confiança dos cidadãos e reintegrar aqueles que se sentem deixados para trás, o terreno continuará fértil para derivas autoritárias.
O desafio do presente não é apenas o de derrotar um líder ou um partido nas urnas, mas o de reconstruir o contrato social. Sem uma reflexão lúcida sobre as falhas que permitiram a ascensão deste fenómeno, a democracia corre o risco de se tornar uma estrutura oca, vulnerável a futuros movimentos ainda mais radicais.




