Ataques diretos, a ostentação de fuzis e o uso de símbolos ligados aos Estados Unidos e a Donald Trump — acompanhados de frases como ‘Trump, joga uma bomba no Brasil’ — revelam um cenário preocupante
A democracia não é um monumento estático; é um organismo vivo que depende, fundamentalmente, do nível de maturidade e responsabilidade daqueles que a integram. Ao observar o atual cenário político brasileiro, torna-se evidente um sintoma preocupante: a substituição do debate de ideias por uma política infantilizada, pautada pela agressão, pelo espetáculo e pelo desrespeito às instituições — postura evidenciada pelo senador e candidato à Presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro, no debate realizado neste domingo (18 de outubro), na TV Bandeirantes
O debate político no Brasil sempre foi palco de grandes embates passionais, mas historicamente preservava a estatura de seus interlocutores. Figuras como Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, Juscelino Kubitschek, Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva — este último reconhecido internacionalmente com o prêmio de Estadista Global, em Davos, por sua atuação no combate à pobreza, na preservação ambiental e no fortalecimento das instituições — ajudaram a erguer os pilares do Estado Democrático de Direito. Independentemente das divergências ideológicas, havia um fio condutor comum: a busca por um projeto de nação.
O que se testemunha hoje em setores da extrema-direita é o esvaziamento dessa tradição republicana. A liturgia do cargo e o respeito aos chefes de Estado dão lugar a comportamentos ostensivamente hostis. Em embates recentes, a postura de Flavio Bolsonaro que recorreu à intimidação verbal, a encenações caricatas — como insinuações de cunho moralista ou adereços performáticos — e à provocação direta revela uma estratégia orquestrada de desestabilização.
Quando a política abandona a discussão sobre segurança pública, saúde, educação e distribuição de renda para se transformar em um circo de provocações performáticas, o grande prejudicado é o cidadão. O eleitor comparece ou assiste aos debates em busca de propostas reais para o país, mas é confrontado com o vazio do espetáculo digital, focado em gerar repercussão nas redes sociais em vez de soluções para os problemas nacionais.
A postura de lideranças com vasta bagagem histórica em não ceder a essa onda de provocações evidencia o contraste entre a experiência de governo e o amadorismo barulhento. A tentativa de apequenar figuras históricas reflete mais a limitação de quem ataca do que a relevância de quem é atacado.
O risco real para o Brasil reside no avanço desse modelo. O país carrega marcas históricas de desigualdade social e concentração de renda que exigem governantes com capacidade técnica, sensibilidade social e diplomacia. Ceder ao avanço do espetáculo da incivilidade é flertar com um retrocesso institucional perigoso. O futuro da democracia brasileira depende da capacidade da sociedade de discernir entre a verdadeira política — aquela que constrói e transforma — e a mera encenação de quem só tem a desordem a oferecer.
Ainda vivemos em uma democracia, mas ela se encontra em constante perigo ao testemunharmos manifestações carregadas de um simbolismo abertamente fascista. Ataques diretos de ódio, a ostentação de fuzis e o uso de símbolos ligados aos Estados Unidos e a Donald Trump — acompanhados de frases como “Trump, joga uma bomba no Brasil” — revelam um cenário preocupante.
Também é motivo de profunda apreensão o caso de Ana Clara Gomes Machado, uma criança de 5 anos atingida por disparos de fuzil enquanto brincava na porta de casa, em Niterói (RJ), durante uma operação policial em 2 de fevereiro de 2021. O acusado do crime é o ex-cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delaroli, que teve em sua equipe formal de defesa jurídica o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), atuando como advogado.
A participação de Flávio Bolsonaro no caso gerou questionamentos sobre sua conduta ética e política ao defender o acusado, os quais não foram respondidos pelo parlamentar no debate que ocorreu nesta segunda feira, 17 de outubro na emissora -TV Bandeirante. O episódio ressurge frequentemente em documentários, séries e debates políticos, alimentando o debate público e motivando buscas intensas sobre os desdobramentos judiciais e o andamento do processo.
Dito isso, convido você, leitor, a uma profunda reflexão antes de depositar seu voto neste segundo turno, no dia 25 de outubro. Esta é uma data histórica, em que a escolha está entre manter o Brasil no caminho da liberdade e do avanço ou ceder a uma mudança de retrocesso que pode comprometer o futuro de todos nós.


Ivonete Schmitz -Editora Chefe
Jornalista MTB-54.748/SP


