No calendário cívico brasileiro, o dia 9 de julho não é apenas mais um feriado ou uma data comum; é o Dia do Soldado Constitucionalista
O tempo passa, a poeira dos séculos se acumula, mas certos fragmentos do passado recusam-se a desaparecer. Eles permanecem vivos não apenas nos livros de história, mas gravados na própria identidade de um povo. Quando olhamos para trás, em direção a um passado que hoje nos parece remoto, percebemos que a liberdade e os direitos que desfrutamos não nasceram do acaso. Eles foram esculpidos à força, e as cicatrizes deixadas pelo caminho são o verdadeiro legado dos grandes heróis que marcaram a nossa trajetória.
No calendário cívico brasileiro, o dia 9 de julho não é apenas mais um feriado ou uma data comum; é o Dia do Soldado Constitucionalista. É o momento em que o país, e em especial o estado de São Paulo, silencia por um instante para refletir sobre a Revolução Constitucionalista de 1932. Mais do que uma efeméride, esta data é um espelho que nos convida a uma profunda e necessária reflexão: quem foram, afinal, os verdadeiros heróis da Pátria?
As Cicatrizes como Medalhas da História
Para compreender o heroísmo, é preciso primeiro entender a dor. Em 1932, o Brasil vivia sob o peso de um governo provisório que centralizava o poder e adiava a promessa de uma nova Constituição. Diante do sufocamento da democracia, um clamor popular ergueu-se.
Os heróis daquela epopeia não foram generais distantes em gabinetes luxuosos. As cicatrizes daquela guerra civil foram carregadas na pele e na alma por cidadãos comuns:
- Estudantes e Jovens: Que interromperam seus sonhos e saíram das salas de aula — como os eternizados estudantes e jovens do MMDC — Mário Martins de Almeida, Euclydes Bueno Miragaia, Dráusio Marcondes de Souza e Antônio Américo de Camargo Andrade — foram manifestantes mortos em 23 de maio de 1932 durante um protesto contra o governo de Getúlio Vargas no centro de São Paulo.
- Trabalhadores e Voluntários: Operários, advogados, comerciantes e agricultores que trocaram suas ferramentas de trabalho por fusis, marchando rumo às trincheiras em nome de um ideal maior.
- As Mulheres Paulistas: Que não apenas costuraram uniformes e doaram suas joias na campanha “Ouro para o Bem de São Paulo”, mas atuaram na enfermagem, na logística e sustentaram o espírito de resistência de um estado inteiro.
As cicatrizes físicas nas trincheiras de Cunha, da Mantiqueira ou do Vale do Paraíba fecharam-se com o tempo. Porém, as cicatrizes históricas — o luto pelas vidas perdidas e o orgulho do sangue derramado por princípios — transformaram-se em um legado imperecível.
A Reflexão: Quem São os Verdadeiros Heróis da Pátria?

Muitas vezes, a história oficial tenta pasteurizar o conceito de “herói”, limitando-o a figuras estáticas em monumentos de bronze. Mas o 9 de julho nos força a descentralizar essa visão.
O verdadeiro herói da Pátria não é aquele que busca a guerra pela glória do poder, mas sim aquele que aceita o sacrifício supremo em defesa da justiça, da legalidade e da liberdade de seus semelhantes.
Os soldados constitucionalistas perderam a batalha militar, capitulando diante das forças federais numericamente superiores. No entanto, venceram a batalha moral. A pressão exercida por aquele levante foi tão avassaladora que, em 1934, o país finalmente ganhou a sua nova Constituição. Eles provaram que o heroísmo não se mede pela vitória imediata no campo de batalha, mas pelo impacto duradouro da sua causa.
O Legado no Presente
Celebrar o Dia do Soldado Constitucionalista em pleno século XXI é um exercício de memória e de vigilância cívica. As trincheiras de hoje mudaram de formato: não se luta mais com baionetas, mas com o debate de ideias, com o fortalecimento das instituições e com a defesa intransigente dos direitos fundamentais.
Olhar para o passado remoto e honrar essas cicatrizes nos lembra de que a democracia é um edifício em constante construção. Os heróis de 1932 nos deixaram a planta alta desse edifício; cabe a nós, cidadãos do presente, garantir que suas fundações jamais voltem a abalar. Que o 9 de julho continue a ser o farol que ilumina o verdadeiro significado de patriotismo: o amor à terra e ao seu povo, traduzido em respeito à lei e à liberdade.
Por Ivonete Schmitz



