Às vezes, em momentos de silêncio e introspecção, vejo-me mergulhado em um pensamento inquietante: como pode o ser humano contemporâneo, no auge de sua sofisticação tecnológica, carregar consigo as marcas de uma regressão tão profunda?
Se olharmos para a história, para a nossa própria ancestralidade física e anatômica, a evolução é inegável. Viemos de um passado selvagem, onde a sobrevivência exigia a brutalidade e o instinto de caça era a única lei para a defesa e o sustento. Mas essa era de sombras parecia ter encontrado seu crepúsculo com a chegada de uma luz transformadora.
Quando o Cristo caminhou por este mundo, Ele não trouxe apenas uma doutrina; Ele trouxe uma revolução do espírito. Ensinou-nos sobre a lealdade que transcende o interesse, o amor que se sacrifica e o perdão que liberta. Sua fonte de pureza resgatou a integridade daqueles que a sociedade julgava perdidos: os marginalizados, os cobradores de impostos, os pecadores. Através de Seus exemplos, Ele tentou moldar uma nova criatura humana, capaz de enxergar no outro um irmão.
No entanto, ao observar o mundo atual, sou invadida por uma tristeza profunda. Parece que os séculos de ensinamentos e o sacrifício supremo no Calvário foram esquecidos ou, pior, distorcidos por muitos.
O que estamos fazendo hoje? Onde foi parar a mensagem de fraternidade sob o peso da ganância, do poder e de uma brutalidade que mal conseguimos descrever? O que mais fere a alma é notar que muitos utilizam o nome sagrado do Cristo para coagir, roubar e semear o ódio. Criam-se bandeiras religiosas como armadilhas para mentes vulneráveis, operando verdadeiras lavagens cerebrais em pessoas que buscam fé, mas encontram apenas exploração.
Neste cenário, surge uma ironia dolorosa: os animais parecem estar mais próximos do papel que nos foi designado. Eles demonstram uma pureza de instinto e uma harmonia com a vida que o ser humano, em sua impetuosidade, perdeu. Enquanto avançamos a passos largos na ciência e na tecnologia — conquistas admiráveis, sem dúvida —, retrocedemos ao estado primitivo de predadores sociais. Assumimos o papel da caça no lugar do abraço fraternal.
Isso nos leva a uma questão definitiva: o que estamos fazendo para, de fato, aplicar os ensinamentos daquele que caminhou humildemente entre nós? Será que a humanidade realmente compreendeu o propósito da crucificação do Cristo, ou estamos destinados a decepcioná-Lo, destruindo nossa própria morada- Mundo por uma incapacidade crônica de amar e perdoar?
A evolução técnica sem a evolução do coração não é progresso; é apenas uma forma mais eficiente de caminhar para o abismo. Resta-nos a urgência de redescobrir o Cristo interno, antes que o lar que nos foi confiado se torne apenas uma memória de uma espécie que teve tudo para ser divina, mas escolheu permanecer bruta e na escuridão.
Por Ivonete Schmitz – Editora e Jornalista


